Entrevista

ERIC NEPOMUCENO

É um dos nomes mais conhecidos do jornalismo no Brasil e além-fronteiras como tradutor de alguns dos autores mais importantes da América Latina, como Julio Cortázar, Juan Rulfo, Gabriel García Márquez ou Eduardo Galeano.

Como jornalista, viveu a ditadura do Brasil antes de se mudar para Buenos Aires. Aqui, conviveu e trabalhou com vários escritores que acabou por traduzir. Qual foi para si a fronteira entre o escritor e o jornalista?
Acredito piamente, como acreditavam outros - Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez e, mais radical ainda, porque não acreditava em limites e fronteiras literárias, Eduardo Galeano -, que o jornalismo é, sim, um género literário. A fronteira, então, está nas limitações que separam dois géneros de um mesmo ofício, que é o de escrever: na ficção, o único limite é escrever da melhor maneira possível, ou ao menos tentá-lo, de tal forma a que se chegue a contar uma mentira com tal fé que seja possível transformá-la, para o leitor, em verdade. No jornalismo, ou na literatura de não ficção, como o considero, as regras e barreiras são outros: urgência, espaço, objetividade, um ofício a ser inexoravelmente exercido no dia a dia. Não creio em jornalismo imparcial porque o ser humano não é imparcial. Se ao amanhecer pensa se usará ou não açúcar no café, já está escolhendo. Está sendo parcial. A vida é feita de escolhas, a vida não é imparcial. Na literatura de não ficção, o que importa e urge é ser objetivo. Na literatura de ficção - um conto, um romance - um único dado colhido da realidade poderá dar credibilidade a tudo que foi inventado a partir da memória ou da imaginação. Na de não ficção, o jornalismo, um único dado inventado pode pôr parede abaixo tudo que se viu, se constatou, tudo que ocorreu e existiu. Para mim, o único ofício que tenho - escrever - se divide em três vertentes: inventar mentiras a partir da memória e do vivido, tentando convencer o leitor de que tudo que lê realmente ocorreu, ou seja, a literatura de ficção; contar ao leitor o que vi, o que investiguei, ou seja, a de não ficção; e traduzir os amigos e livros que, de uma ou de outra forma, me instigaram. No fundo, o ofício é o mesmo: buscar a palavra exata.

Manifestou-se já publicamente, por diversas vezes, sobre a importância do jornalismo na História do Brasil. Como olha atualmente para o papel do jornalismo?
Com tristeza e com indignação. Ao menos em tudo aquilo que se refere aos meios tradicionais - revistas, jornais, rádio, televisão - em meu país o ofício do jornalismo desapareceu quando se transformou em profissão. Explico: ofício é aquilo que alguém faz para viver e, portanto, vive para fazer, ou não se sentirá vivo. Profissão é o que se faz para ter com o que viver. Meu país é o único que conheço que se reencontrou, bem ou mal, com a democracia, menos a imprensa. Não há diversidade de vozes, opiniões: o que existe é uma diversidade de ecos de uma mesma voz, a voz do sistema. Pertenço à última ou talvez das penúltimas - poucas - gerações de jornalistas brasileiros que exerciam seu ofício. Dos meus tempos, alguns se deixaram comprar - literalmente, comprar. Ou seja, venderam sua trajetória, seu passado, para pactuar com a manipulação. Os outros foram buscar novos meios de se expressar. Nossa democracia foi fragilizada, e de maneira tremenda, pelos meios de comunicação, que deixaram de informar e passaram a deformar. O golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff e abriu espaço para que uma quadrilha se apoderasse do país e resultou na eleição de um mentecapto, um energúmeno, teve na imprensa (e, por favor, não no jornalismo, que deixou de existir) um pilar fundamental. Nunca a manipulação foi tão escandalosa. O povo do meu país é desmemoriado, e foi - principalmente a classe média - idiotizado pelos meios de deformação, digo, comunicação...

Disse em entrevista: “Chorei de uivar ao traduzir a última página da biografia de Gabo”. Ter traduzido e privado com García Marquez foi marcante no seu percurso?
Tive o privilégio e a alegria de ter sido amigo dele. Mais que isso: nossas famílias foram e são amigas. Presto, carinhosamente, contas do que acontece comigo, com meu filho, à patriarca Mercedes, amiga querida. Quanto a lições, digo que nosso convívio longo, longo, foi uma lição de escrita, é verdade, mas muito mais foi uma lição de vida, uma dessas dádivas que a vida nos concede. Sim, há muitos, muitíssimos episódios dos quais me recordo. Peço licença, porém, para mantê-los comigo, até o dia em que me decida escrevê-los...

Quais os próximos projetos de publicação em Portugal?
Tenho um par deles. Fiquei muito contente com a publicação do meu livro de contos 'Bangladesh, talvez e outras histórias', em 2018, pela Porto Editoria. Espero que este 2019 me leve de volta a Portugal, com outro projeto que está em curso ou espero que esteja. E também todos os anos vindouros...