A fuga dos centros urbanos para o Oeste
Depois do nascimento da primeira filha, a rotina de Charlotte e do marido tornou-se caótica. Viviam em Lisboa, mas João ia todos os dias para Torres Vedras, onde tinha uma clínica de fisioterapia. Chegava a casa às nove da noite e só via a filha acordada quando a levava à creche de manhã. A mãe, também fisioterapeuta, passava o dia presa no trânsito e a correr contra o relógio. O aumento “brutal” da renda da casa em 2017 ditou a solução: mudaram-se para o centro histórico de Torres Vedras, onde já nasceram os dois filhos mais novos.
“Aqui faço tudo a pé. Os miúdos só precisam de acordar às oito, vão para a escola às nove, por vezes até de bicicleta”, conta Charlotte, 34 anos. “Toda a rotina é melhor.” Nos últimos dez anos, milhares de famílias mudaram-se para concelhos como Mafra, Torres Vedras, Sobral de Monte Agraço e Arruda dos Vinhos, mais longe dos grandes centros urbanos, mas ainda dentro do distrito de Lisboa. Segundo os Censos, estes quatro municípios ganharam 14 mil habitantes entre 2011 e 2021. Só de Lisboa e de Sintra receberam 4400 pessoas em dois anos. E o interesse continua a crescer: em 2022, a venda de casas em alguns destes locais ficou entre 20% e 30% acima do período pré-pandemia.
O Oeste é agora visto como um “laboratório” desta fuga dos centros urbanos. “Está a ocorrer uma transformação muito grande”, resume o geógrafo João Ferrão. Também Jorge Malheiros, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, considera que é um “caso paradigmático” da transição do espaço urbano para o periurbano. “Há um motivo económico: a procura por casas mais baratas. O agravamento dos preços em Lisboa e na periferia mais próxima tem levado as pessoas a procurar casa cada vez mais longe.” Mas não são só os preços a motivar a mudança. “Aqui ainda se vive devagar”, diz Nuno Santos, informático de 48 anos, que se mudou do Estoril para Mafra com a mulher e os filhos há dois anos. “Queríamos que as crianças pudessem ir a pé para a escola, tal como íamos há 30 ou 40 anos.”

Ferrugem nos portões
Mafra é o município do distrito de Lisboa que mais cresceu na última década (13%), ganhando quase 10 mil habitantes. Entre eles está quem o tenha escolhido para aproveitar a reforma, como é o caso de Margarida Casanova, que tem 65 anos e há sete se mudou com o marido de Massamá para a Ericeira. “Reformei-me e tinha o sonho de ir viver para outro sítio. Quando o meu filho mais novo emigrou para a Malásia, senti-me mais descomprometida. Encantei-me com a Ericeira, convenci o meu marido e comprámos cá casa. É aqui que quero acabar os meus dias.” Apesar de a humidade lhe enferrujar os portões da casa e o fundo das “latas dos bolos”, está feliz com a mudança e tem visto aumentar o número de habitantes Gaté pela ocupação dos autocarros, o que já levou a Barraqueiro Oeste, que serve esta zona, a aumentar a frequência em vários percursos. Em Torres Vedras, a venda de casas em 2022 ficou 30% acima da média em 2018/19, enquanto que em Sobral de Monte Agraço e Arruda dos Vinhos subiu 20%, segundo a Confidencial Imobiliário. Os preços é que já estão bem longe do que eram: um imóvel em Mafra ou Torres Vedras já custa mais 50% do que há três anos.
Face ao progressivo ‘alastramento’ da população pela Grande Lisboa, Sandra Marques Pereira, investigadora do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território do ISCTE, considera que os limites administrativos e geográficos da área metropolitana estão “desadequados” e deveriam ser “redefinidos”, sublinhando a necessidade de “uma política de habitação a nível metropolitano, articulada com a de transportes, já em curso”. Mas há duas dificuldades: “Os transportes, outro dos calcanhares de Aquiles das políticas nacionais, e, não menos importante, a competitividade entre concelhos.”
Saúde em “rutura”
Nem tudo são elogios. As famílias que se mudaram para o Oeste nos últimos anos sentem que alguns serviços, sobretudo de educação e saúde, não foram redimensionados. É o caso das vagas na pré-escolar. Mónica e Rodrigo, de 31 e 40 anos, pais de três crianças, mudaram-se para Torres Vedras em 2019. “O nosso filho de três anos não teve colocação nas cinco escolas de preferência escolhidas em 2022.” Além disso, nenhuma das crianças tem médico de família, algo que se repete com os filhos de Charlotte e João.
Com mais de 300 mil utentes, o Centro Hospitalar do Oeste, que serve dez concelhos, está em “rutura de serviços”, diz Vítor Dinis, da comissão de utentes. A pressão deve-se ao aumento da população residente, mas também ao turismo e crescente número de trabalhadores agrícolas.
Entretanto, mais famílias continuam a chegar a estes concelhos e já ninguém tira Margarida Casanova do Oeste. “Só não gosto da confusão no verão e sinto falta do cinema. Mas para isso vou a Lisboa, o autocarro é rápido e tenho o passe a €20.”