O bacalhau é um mundo que move Ílhavo

Jeremias Vilarinho Ferreira, 83 anos, “nascido, batizado, casado e natural da Gafanha da Nazaré”, tem um amor à vida que celebra a cada frase. Está reformado de 50 anos na pesca, 19 na faina do bacalhau. “Primeiro fui moço, verde, que é o primeiro ano, depois maduro, pesquei quatro anos à linha na Gronelândia e na Terra Nova”, conta sobre a ponte que liga ao “Santo André”, arrastão transformado em museu vivo, no Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré, Ílhavo. Cumprimenta Manuel Louvado, também ele pescador dos tempos duros do bacalhau. Andavam nos dóris, pequenos botes de madeira que eram largados aos 60 do navio principal com um homem a bordo, que lançava a “linha de mão” com 900 anzóis. Enchiam o barquito de peixe e regressavam ao navio principal 10 horas depois, para a segunda parte do trabalho.
“Você não se acredita, mas ainda hoje sonho que ando no mar”, desabafa Manuel. Tem 75 anos, nasceu na Murtosa, mas veio para Ílhavo “pequenito”, para o bairro dos pescadores, já o pai era contramestre. Começou no “Allain Villiers” com 16 anos: “Andei à linha até 1968, depois é que fui para o arrasto no navio maior da frota bacalhoeira, o ‘David Melgueiro’”, conta enquanto percorremos o navio que a autarquia de Ílhavo musealizou. Depois de regressarem ao navio grande, ainda amanhavam, escalavam, tiravam caras e samos ao bacalhau. O descanso era pouco, não sem antes comer a chora, a sopa de cabeças de bacalhau que aconchegava o estômago dos velhos pescadores.
“Ainda hoje gosto de uma boa chorinha.” No enorme porão do “Santo André” preserva-se a memória da salga. Nesta enorme barriga, situada abaixo do nível do mar, reduzia-se o tamanho do enorme monte de sal que embarcava com a tripulação no início da viagem. Era aqui que terminava o ciclo do bacalhau, num ramerrame que podia durar meses, dependendo do estado do mar e do peixe que se conseguia apanhar. “Ir ao bacalhau agora é como quem vai dar um recado. Nós chegávamos a fazer viagens de nove meses. Eles agora vão com contratos de três meses”, argumenta Jeremias. O frio e o isolamento, além do trabalho duro, eram o dia a dia de milhares de portugueses na Terra Nova. “Em 1960 o salário era 12 ou 13 contos em seis meses de mar. Depois chegávamos a terra e não havia trabalho a bordo. E era o inverno cá.”
Manuel e Jeremias são dois dos milhares de homens que se fizeram ao mar à procura de melhor vida. Tal como eles, muitos escaparam à tropa e à Guerra Colonial nos mares do Norte.
“Só no período do Estado Novo há 22 mil homens, de Vila Praia de Âncora até à Fuzeta, que foram ao bacalhau. A nós interessa-nos recolher esses depoimentos”, vinca Nuno Costa, diretor do Museu Marítimo de Ílhavo, por onde já passaram este ano 65 mil visitantes. O aquário dos bacalhaus, um dos pontos altos da visita, mostra dezenas de peixes da espécie Gadus morhua, o bacalhau que é pescado e consumido pelos portugueses.
Cativar a “malta nova”
O armador Aníbal Paião, administrador da Pascoal & Filhos, conhece-o bem. O empresário, economista, filho, neto e sobrinho de gente ligada à faina do bacalhau cresceu a bordo dos navios. Hoje tem uma frota de dois naviosfábrica — o “Cidade de Amarante” e o “Pascoal Atlântico” -, que por estes dias navegam no Atlântico Norte. São dois dos nove naviosfábrica para a pesca do bacalhau por arrasto que Portugal tem. Os nove navios portugueses estão todos sedia dos no Porto de Aveiro e “produzem anualmente entre 20 e 25 mil toneladas de pescado, de forma sustentável”, diz Aníbal Paião. Pescam na Noruega, em Svalbard, onde se localizam os melhores pesqueiros de bacalhau do mundo, e no Canadá. A bordo seguem sempre observadores, monitorizando todo o processo. “O stock está em ótimo estado de conservação”, assegura o empresário, que é também dirigente associativo e presidente dos Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo.
A frota portuguesa abastece cerca de 2% do consumo nacional. “Nunca fomos autossuficientes.” Importamos bacalhau da Noruega, Islândia e Canadá. Esta é uma das questões do sector, a braços com falta de mão de obra. No Cais dos Bacalhoeiros, onde está sediada grande parte das empresas, sucedem-se os anúncios de trabalho. O empresário garante que “o rendimento médio desta pesca é compensador”. O pessoal de mar recebe uma percentagem da receita bruta do navio. “Pode ir, por viagem, de milhão e meio a dois milhões e meio de euros. A mestrança, contramestre e cozinheiro estão a ganhar 1% sobre estes valores. Eles recebem só de receita bruta €20 mil, mais o salário, subsídios”, explica. Os navios saem duas a três vezes por ano. Aníbal Paião conta que, há uns anos, muitos chegavam a terra e compravam um carro com o que tinham ganhado. Não resiste a piscar o olho: “É muito importante que esta malta nova venha para os navios.”
