Entrevista

André Carvalho Ramos

André Carvalho Ramos é atualmente jornalista de política na TVI e TVI 24. Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social, com especialização em televisão pelo CENJOR, já trabalhou na RTP, CMTV, Correio da Manhã e colaborou com a Organização das Nações Unidas. Veja aqui a entrevista deste mês.

Qual foi o acontecimento mediático que mais o marcou?

A crise de refugiados na Europa é o acontecimento mediático que mais me marcou e ainda marca. Por isso mesmo, tive a iniciativa de no ano passado ter começado a fazer a cobertura jornalística deste assunto. É chocante ver pessoas a perderem a vida de forma trágica no mar Mediterrâneo ou no mar Egeu, é chocante tentar adivinhar a difícil travessia que já fizeram para ali estarem num bote de borracha e, agora, já em terra firme na Europa, é chocante ver as condições em que vivem e que nos deveriam envergonhar a todos. Esta é certamente a maior tragédia humanitária deste século e a Europa continua a agir como se não tivesse, durante mais de 50 anos, lutado tanto pela conquista dos Direitos Humanos.

Qual é, atualmente, na sua opinião, o maior obstáculo que os jornalistas enfrentam no exercício da profissão?

O financiamento dos órgãos de comunicação social é o principal problema. A crise económica e financeira empurrou os grupos detentores de órgãos de comunicação social para uma situação frágil que ainda atravessam e isso empurra também os próprios jornalistas, sobretudo as novas gerações, para situações insustentáveis: baixos salários, contratações precárias e ausência de investimento que permita ter as condições certas para trabalhar em histórias de maior relevo.

O que acha da disseminação das fake news por órgãos de comunicação social?

O fenómeno das fake news tanto pode ser a vontade gratuita de um sujeito gerar entropia na discussão pública sobre um assunto como uma vontade deliberada de alterar opiniões com factos falsos. Mais do que nunca o papel do jornalista é importante como a única fonte em quem confiar, daí considerar cada vez mais essencial uma comunicação social forte nas nossas sociedades, como garante de uma democracia saudável e funcional, onde os cidadãos fazem escolhas conscientes e fundamentadas em factos. Dificilmente as fake news deixarão de existir e cabe aos órgãos de comunicação social verificar duas e três vezes todas as informações que veiculam, não embarcar em “alternative facts” e não deixar que a obsessão pela rapidez de serem os primeiros a dar a notícia absorva etapas de verificação. Para não serem parte integrante da entropia gerada pelas fake news o jornalismo deve fazer aquilo que desde sempre lhe compete - jornalismo.

Qual o seu conselho para os jovens estudantes que pretendem seguir Jornalismo?

A determinação é fundamental num mercado de trabalho saturado. É preciso ter consciência que as oportunidades são escassas, as condições oferecidas pouco satisfatórias e a exigência cada vez maior. É preciso ler muitos jornais e sites, ouvir muitas rádios, ver muita televisão e muito cinema. Ficar parado com o conhecimento com que se sai de uma universidade ou politécnico não é suficiente e é essa necessidade constante de aprender que torna a profissão tão especial. Para seguir uma carreira em jornalismo é preciso transformar o esforço em determinação, é preciso coragem para nunca desistir e é também preciso ter amor verdadeiro ao trabalho. A partir do momento em que se é jornalista, é fundamental escolher uma área de especialização e a partir daí começar a contar histórias e dar notícias.