Entrevista
Paulo Martins
Paulo Martins é jornalista, professor universitário e investigador do Centro de Administração e Políticas Públicas (FCT - ISCSP). O lançamento do seu mais recente livro, O bairro dos jornais, deu mote a esta entrevista.
Qual lhe parece ter sido o motivo da escolha do Bairro Alto para os vários jornais que aqui se instalaram?
É difícil estabelecer com segurança uma única causa. O mais provável é terem seguido as tipografias, de que dependiam, que progressivamente ocuparam pisos térreos de palácios abandonados por nobres. É que, embora o terramoto de 1755 não tenha afetado muito significativamente o bairro, grande parte da aristocracia saiu para outras zonas da cidade, nos anos seguintes.
Este mapa tão completo do Bairro da Imprensa é fruto de um extenso trabalho de investigação. Porquê o interesse neste tema?
Porque me parece fundamental valorizar um território tão intimamente ligado à Imprensa. Porque a História da Imprensa portuguesa desde meados do século XIX se concentra naquele espaço. Porque eu próprio trabalhei em dois jornais do Bairro Alto (o Diário de Lisboa e A Capital), no final dos anos 1980 e no início da década seguinte.
Tendo sido o Bairro Alto um polo do jornalismo, até que ponto terá havido uma colaboração mútua entre os vários jornais ou jornalistas? E, a ter havido, crê que existe ainda hoje esse espírito de entreajuda na profissão?
À primeira pergunta, respondo inequivocamente: são muitos os episódios de solidariedade entre jornalistas na História da Imprensa no Bairro Alto e, em alguns casos, de cooperação efetiva, apesar da natural concorrência entre jornais. Conto alguns desses episódios no livro. Quanto à segunda pergunta, a minha resposta é exprimir dúvidas. Creio que hoje impera, por razões que não vale a pena desenvolver nesta sede, um certo individualismo, por natureza avessa a entreajuda ou a ações coletivas.
Até que ponto esta visita guiada pode ser ainda hoje orientadora para quem visite o Bairro Alto?
Hoje, o que resta da Imprensa no Bairro Alto é muito pouco: a redação de A Bola e as entidades a ela ligadas: a revista AutoFoco; a ASF, agência de fotografia, e A Bola TV. O jornal digital Observador está de saída. Gostaria que o livro contribuísse para que a Câmara de Lisboa valorizasse o espaço. Promovendo, por exemplo, visitas guiadas pelos edifícios que acolheram jornais. Ou montando um Museu da Imprensa no bairro. As antigas instalações de O Século, onde hoje funciona o Ministério do Ambiente, poderiam ser uma boa alternativa para o efeito.
Podemos de algum modo concluir que o sistema mediático do Bairro Alto foi um dos mais relevantes do nosso passado recente?
Foi mesmo o mais relevante. Descobri que passaram pelo Bairro Alto quase 600 publicações desde 1950. Só em 1921, funcionaram em simultâneo 65 jornais. Isso diz tudo.
Crê que os novos espaços públicos on-line como o Facebook, podem, de alguma forma, emular o ambiente de proximidade e camaradagem que se vivia no Bairro Alto?
Sou muito crítico das redes sociais, que se promovem a proximidade entre as pessoas e proporcionam a expressão de opinião e a participação cívica também constituem veículo de exposição da privacidade, divulgação de notícias falsas e até de atos de difamação. O que precisamos é de descobrir formas de assegurar que o Jornalismo continue a cumprir a sua missão, independentemente da plataforma, separando-se claramente de outros comunicadores, profissionais ou não.
Existe, hoje, algum centro nevrálgico do jornalismo como era o Bairro Alto?
Não, de todo. Os órgãos de comunicação dispersaram-se. O fenómeno não é português, aconteceu noutros países.
