Entrevista

Tiago Salazar

Escritor, jornalista, viajante profissional, Tiago Salazar é um motorista acidental. Conhece hoje Lisboa e as suas personagens como poucos, mas, no fim do dia a dirigir um tuk-tuk acaba sempre a falar de jornalismo, viagens e literatura. Por isso, escreveu o livro de crónicas O Moturista Acidental. Enquanto isso, a Escada de Istambul, o seu primeiro romance, representou Portugal em Chambéry.

Escritor, jornalista, viajante e motorista de tuk-tuks. Como é que a escrita se cruza e inspira a viagem?

A escrita está em toda a parte. Há um lado da escrita que pede vida. Não há como escrever sem a vida, sem a rua e sem a experiência. Embora admire muito alguns escritores que escrevem por pura imaginação. Julgo que talvez tenha sido o jornalismo que me fez assim. Para mim, a escrita é a realidade. Mesmo que a realidade seja por vezes deformada pela visão deturpada das coisas. Mas evito ao máximo o erro.

No seu último livro, "O Moturista Acidental", partilha crónicas com um caráter muito cinematográfico. Este é um género jornalístico de que gosta particularmente?

Gosto muito da crónica e da escrita do dia-a-dia, do imediato. Para mim, este género de escrita é o que considero ser mais autêntico. Faço isso seja numa rede social, seja num email ou numa crónica. Gosto do instinto da escrita, de tudo o que seja imediato. Não me vejo como um maratonista da escrita, até porque escrevo sempre primeiro contos e só depois os romances. Este livro nasceu de uma experiência real, na rua, a guiar. Podia ter feito isto num sapateiro, por exemplo, como fez o Daniel Day-Lewis, em Florença, ou podia ter ido treinar boxe como fez o Belarmino. No meu caso, fui para a rua experimentar a profissão de chauffeur, mas sem praça. Isto porque os tuk-tuks não têm praça, são a chamada terra de ninguém. O que não significa que o ofício de condutor não tenha um lado digno, sério e nobre. No fundo, passear alguém é um ato de generosidade, de embaixada. Claro que só me predispus a fazer isto para escrever crónicas. Tenho orgulho na minha cidade, e tenho como grande referência o José Cardoso Pires. Lisboa Livro de Bordo foi o livro que me inspirou a escrever O ‘Moturista’ Acidental.

Apesar de se dedicar sobretudo à escrita, o jornalismo é a sua formação base. Qual a fronteira entre ambos?

Não gosto de fronteiras. Gosto de caminhos abertos e desimpedidos. Escrever é um ato em maiúscula. Não há uma escrita menor porque não há menor importância quando se escreve uma carta, uma crónica ou romance. Falo do respeito pelos interlocutores porque quem lê tem de ser respeitado.

Quando percebeu que era a altura certa para começar a escrever sobre viagens?

A escrita de viagens aconteceu naturalmente no contexto do chamado jornalismo de viagens. Não foi uma opção. Acho que o que aconteceu foi que desde o primeiro ano de jornalismo fui parar à escrita de viagens. Tenho um grande amor pelas línguas. Apesar de não ter estudado literaturas, sempre estive próximo das línguas devido a minha formação em Relações Internacionais.

Quais são os próximos projetos?

No seguimento do Moturista Acidental (A23 Edições), segundo livro de crónicas que edito com esta chancela, estou agora envolvido num programa de televisão inspirado no livro. O programa será apresentado no início do próximo ano, dividido em seis episódios por Lisboa. Richard Zimler, Ricardo Ribeiro, José Manuel Fajardo, Camané, Esther Mucznik, Madona...