CSI do património desvenda mistérios

“Isto deve ter sido feito num convento aqui de Évora, e, se foi produzido aqui, existiam já materiais muito inovadores em Évora no século XVI. Qualquer pessoa que vem a Évora hoje em dia acha que é muito pitoresco, mas muito parado no tempo. Na altura era um centro de conhecimento.” Catarina Miguel está na sala de reservados da Biblioteca Pública de Évora a estudar um livro de coro, com 500 anos, recorrendo a um equipamento portátil de tecnologia avançada. “Já viu a beleza que ressalta da iluminura?”, entusiasma-se a investigadora, explicando que o termo significa precisamente iluminar, dar luz ao texto, para que pudesse ser visto a grande distância.
Esta é a investigação que a cientista portuguesa, a primeira a entrar no Vaticano para analisar pergaminhos, tem em curso. Está a “excitar as moléculas” das iluminuras centenárias com feixes de luz, provocando reações que lhe vão permitir perceber quais os pigmentos usados. É uma minudência que, após ser estudada e analisada (a equipa de trabalho, multidisciplinar, inclui uma historiadora), vai produzir conhecimento — e, em muitos casos, mudar a História: em 2017 mostrou que Portugal estava um século mais avançado do que o resto da Europa na produção de manuscritos.
Évora continua a ser um discreto, mas poderoso centro de conhecimento. Quem passa no Palácio do Vimioso, edifício seiscentista em frente à Sé, não imagina o que se passa lá dentro. No Laboratório HERCULES — acrónimo de HERança CULtural, Estudos e Salvaguarda —, mais de 70 cientistas de 19 nacionalidades trabalham em investigação material aplicada ao património. Criada em 2009, a instituição da Universidade de Évora produz informação preciosa. “Fazemos estudo do património, mas sempre do ponto de vista material. Nós não temos historiadores de arte, temos pessoas das áreas da física, química, bioquímica ou geologia, porque trabalhamos os materiais”, ressalva José Mirão, diretor do HERCULES, que nos vai guiar de sala em sala. Dá a sensação de que estamos no “CSI”, a investigar coisas que parecem impossíveis de investigar. A analogia com a série policial é usada — embora na televisão os resultados pareçam imediatos e aqui possam demorar muito tempo a surgir.
“O objetivo deste estudo é sempre a valorização do património. Tentamos fazê-lo de duas formas. Por um lado, utilizar esse património como fonte de informação, quer sobre o trabalho artístico quer sobre sociedades antigas, por outro, a sua própria conservação. Nesse âmbito, estamos a desenvolver a criação de novos produtos químicos para proteção desse próprio património”, explica o diretor. O currículo do HERCULES e dos seus investigadores, todos doutorados, é vasto. Recentemente, uma equipa do laboratório alentejano (que José Mirão, a par de António Candeias e Sara Valadas, integrou) trabalhou como Museu Munch, em Oslo, nos trabalhos de conservação de pinturas do artista norueguês.
O geólogo italiano Fabio Sitzia estuda de que forma as alterações climáticas afetam a conservação dos edifícios (esta linha de trabalho do HERCULES já teve aplicações práticas em monumentos em Alcobaça e na Batalha). Mafalda Costa dedica-se ao estudo de contas de vidro da Idade do Ferro, para perceber onde foram feitas e como chegaram a Portugal. O nigeriano Joseph Babatunde analisa colagénio com 600 anos, proveniente de ossos de freiras algarvias. Com a sua pesquisa procura perceber se a dieta dos séculos XVI a XIX foi influenciada pelo transporte de alimentos por via marítima durante a época da expansão portuguesa.
Milene Gil estuda as pinturas murais de Almada Negreiros em Lisboa e acaba de ver o seu trabalho reconhecido com o prémio Europa Nostra. A importância da pesquisa que está a desenvolver prende-se também com o restauro dos murais das gares marítimas de Alcântara: “Precisamos de saber, afinal, o que ele utilizou, para depois saber como conservar, como restaurar.” O resultado do seu trabalho está a começar a ser posto em prática.