1988

Ao assumir, ontem, pela segunda vez após a sua integração, a presidência da Comunidade Europeia, a Grécia compreenderá, certamente que haja alguma prudência por parte dos restantes Estados membros quanto à sua capacidade para dar passos importantes em direção à construção do Mercado Interno.

Sobre o lema implícito de que “o Leste também é Europa”, a CEE assinou ontem, no Luxemburgo, um acordo de reconhecimento e cooperação mútua com o COMECON (o seu equivalente no mundo socialista), que abre o caminho a um panorama radicalemnte diferente entre os dois blocos num futuro não muito distante.

Com uma rapidez pouco habitual para os padrões da Comunidade Europeia, os ministros das Finanças dos Doze, reunidos no Luxemburgo, conseguiram uma plataforma de acordo quando à liberalização do mercado de capitais. Recorde-se que as directivas da Comissão foram apresentadas há apenas cerca de nove meses e que o tema é um dos de maior sensibilidades relativamente à construção do grande mercado interno até 92.

A realização do Grande Mercado Interno da Comunidade Europeia, prevista para 1992, vai trazer benefícios significativos para os doze Estados membros, embora tenha um saldo menos positivo que importa não descurar.

Nem sempre o poder é tudo, a influência também move montanhas. Jean Monnet, de quem se comemora este ano o centenário, nunca tece o poder directamente nas mãos mas, com uma rara habilidade, conseguiu persuadir políticos e homens de Estado – incluindo o general De Gaulle - a estreitar os laços de uma Europa destruída pela guerra, os alicerces da Comunidade Europeia.

Decididamente, a Europa está num ambiente de comemorações. Na próxima segunda-feira, a Comunidade Europeia assinala o seu dia e o mesmo já aconteceu, na quinta-feira passada, em Estrasburgo com o Conselho da Europa.

O primeiro-ministro Cavaco Silva propôs, ontem, em Estrasburgo, a criação de um Centro especializado do Conselho da Europa dedicado ao diálogo Norte-Sul. O chefe do Governo português falava perante a reunião da Primavera da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, num amplo discurso onde se pronunciou sobre diversos vectores da política externa portuguesa.

A União Europeia Ocidental (UEO) anunciou, oficialmente, ontem em Haia, o seu empenhamento em iniciar o processo de integração de Portugal e Espanha naquela organização. Falando no final de um conselho de ministros da UEO, o ministro da Defesa da Holanda, Willem van Eckelen, indicou que as negociações para o alargamento seriam iniciadas “com a convicção de que irão ser bem sucedidas”.

A visita da primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, à Turquia, concluída na quinta-feira à noite, cumpriu todos os objectivos previstos: contribuiu para intensificar o relacionamento político e comercial entre os dois países, encorajou o primeiro-ministro, Turgut Ozal, a prosseguir o seu programa de modernização do país e conseguiu manter a resposta vaga, já conhecida, quanto à pretensão de Ancara de uma futura integração a Comunidade Europeia.

O projecto do grande mercado interno, na CEE, até 1992, parece ter entrado já no quotidiano de muitos empresários europeus – nem todos -, mas a sua concretização mostra-se ainda bastante atrasada

Com o sucesso obtido na última cimeira europeia de Bruxelas, em que se ultrapassaram os principais problemas que se levantavam ao financiamento e desenvolvimento da Comunidade, parecem estar definitivamente abertas as portas para a construção do Grande Mercado Interno até 1992, sem barreiras à circulação de pessoas e mercadorias.

A Comunidade Europeia acaba de dar uma das suas maiores demonstrações de maioridade, depois de ter conseguido ultrapassar múltiplas divergências entre os doze Estados Membros e chegar a acordo em relação a medidas drásticas para o seu relançamento económico.