Entrevista

Ana Margarida de Carvalho

Ana Margarida de Carvalho licenciou-se em Direito, mas enveredou pela carreira do jornalismo onde foi assinando reportagens que lhe valeram dez dos mais prestigiados prémios do jornalismo. No currículo, conta com passagens pela SIC, Visão e Jornal de Letras.

O seu primeiro romance Que Importa a Fúria do Mar valeu-lhe o Grande Prémio de Romance e Novela APE em 2013 e o mais recente, Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato, foi considerado pela Sociedade Portuguesa de Autores livro do ano, em 2017

São cada vez mais os jornalistas a converterem-se à literatura. Na prosa literária o que atrai o jornalista?

Não tenho ideia de que sejam cada vez mais. Camilo Castelo Branco era jornalista, Ferreira de Castro também ou José Rodrigues Miguéis. Claro que há jornalistas que se instalaram mais firmemente na ficção, como José Rodrigues dos Santos ou Rodrigo Guedes de Carvalho, como Inês Pedrosa ou Rui Cardoso Martins, como Alexandra Lucas Coelho ou Paulo Moura, e claro que o grande exemplo será sempre José Saramago. Mas apenas queria frisar que não me parece que seja uma tendência de agora. Dá-se o caso de, em ambos os ofícios, parte do material de trabalho ser a escrita. Mas o mesmo acontecerá na publicidade, na advocacia ou na diplomacia.   

Como alguém com formação em Direito, acredita que o jornalista deve ter uma formação complementar à do jornalismo?

Sim, acredito que ter uma formação académica é muito importante. Por exemplo, o Direito dá-nos uma espécie de disciplina de raciocínio, um método interior, uma lógica condutora.

Que caraterísticas deve o jornalista ter?

Saber reparar, saber ouvir, e não se deixar cair em deslumbramentos fáceis ou embarcar em clichés e frases feitas que de tão repetidas já não significam nada. 

Como perspetiva o panorama jornalístico português?

O grande problema é justamente a falta de perspectiva. Ninguém sabe, e o pior é que ninguém quer saber. O jornalismo português apenas se limita a tentar manter-se à tona, repetindo fórmulas estafadas e arcaicas, que outros órgãos de comunicação social estrangeiros já abandonaram. Toda a gente vê o fim à vista, mas preferem ignorá-lo e continuarem desesperadamente a fazer uma navegação à vista, a adornar segundo a vaga, sabendo-se que todo o paradigma de comunicação mudou com a internet e as redes sociais. É tal como Darwin dizia, não sobrevive o mais forte, mas aquele que têm maior capacidade de se adaptar. O jornalismo português mostrou ser muito conservador, muito pouco flexível, muito incapaz de prever as situações futuras. Além de ter uma linha geral de chefias muito fraca, em termos intelectuais e até cognitivos. A falta de talento generalizada é aflitiva, a banalidade também. E agora é tarde, resta escrever-lhe o livro de condolências.