Entrevista

Paulo Moura

Paulo Moura é escritor e repórter. Trabalhou durante 23 anos no jornal Público e por várias vezes cobriu zonas de guerra. O lançamento do seu nono livro Uma Casa em Mossul dá mote a esta entrevista.

É do nosso entendimento que prefere ser chamado repórter. Na sua opinião o que difere um jornalista de um repórter?

De facto, sinto-me mais confortável com o título de repórter, que designa uma actividade mais precisa. Sou jornalista, mas o Jornalismo é uma profissão mais abrangente, mas também mais vaga e por vezes ambígua. Não me identifico com tudo o que se faz nos jornais, ou nos media. O que sou, o que sempre fui, é alguém que vai aos locais, que procura de forma activa a informação e as histórias, que não abdica da sua visão pessoal sobre essa informação e essas histórias, a sua interpretação, a sua forma própria de contar, de se relacionar com os leitores.

Para mim, o repórter tem de ser independente, autónomo, desligado de quaisquer interesses, autor, livre e soberano. O repórter deve emergir, numa época cada vez mais dominada pelas notícias falsas, pela promiscuidade entre os interesses económicos, políticos e mediáticos, como o último reduto da seriedade e confiança. Os leitores deveriam conhecê-los, seguir o seu trabalho, procurá-los, apoiá-los. E não os confundir com a realidade mais vasta e mais dúbia dos “media”, que é cada vez menos merecedora de confiança.

O jornalismo está normalmente associado à objetividade e ao modelo da pirâmide invertida. Como docente da disciplina de Jornalismo Literário, de que forma crê que a subjetividade do repórter se pode refletir numa peça?

O Jornalismo Literário é uma escola, uma corrente, uma forma de fazer jornalismo que usa recursos da literatura e das artes na escrita sobre a realidade. Distingue-se do jornalismo convencional, por um lado, pelo modo como investiga os factos, não se apoiando apenas na recolha de dados e depoimentos, mas na imersão. É preciso estar nos lugares, com tempo, atenção, envolvimento, para compreender a realidade de uma forma mais profunda. Por outro lado, distingue-se pela forma como apresenta a informação. Na escrita, pode usar diálogos, vários tipos de narração, digressões, monólogo interior, perspectiva da terceira pessoa, etc.

A subjectividade do repórter é fundamental, não porque seja importante que ele exprima os seus sentimentos, mas em nome da eficácia informativa. O repórter tem de usar a sua capacidade de observação, a sua agressividade investigativa, a sua inteligência, mas também a sua sensibilidade. O mundo tornou-se demasiado complexo para que uma abordagem superficial dos factos fosse suficiente. Os leitores querem, e têm necessidade de compreender as transformações profundas que ocorrem à sua volta. Não se satisfazem apenas com notícias escritas segundo o método da pirâmide invertida. Um mundo em mudança exige um jornalismo mais inteligente e sensível.

E também não chega usar de forma descomedida e infantil todas as tecnologias sofisticadas que temos à disposição. O uso de vídeos, linguagens multimédia, recursos sofisticados de programação nem sempre é garantia da abordagem profunda da realidade que os leitores exigem.

Em “Uma Casa em Mossul”, o seu mais recente livro, trata do Estado Islâmico com conhecimento de causa. Fale-nos, por favor, um pouco sobre o seu livro, e o que reteve da sua experiência em Mossul e Erbil.  

Uma Casa em Mossul é o resultado de várias viagens à região do Iraque, Síria e Turquia, com o objectivo de me aproximar o mais possível do Estado Islâmico. Numa dessas viagens, em Julho do ano passado, entrei em Mossul, a declarada capital do Califado, enquanto ainda decorriam os combates entre o Daesh e as forças iraquianas com a ajuda da coligação internacional. Durante dez dias, estive a “viver” numa casa em Mossul Ocidental, a zona da cidade, na margem esquerda do Tigre, que se manteve por mais tempo sob o controlo dos jihadistas. Foi um momento muito especial, em que a cidade já estava, supostamente, “libertada”, mas onde o Estado Islâmico ainda controlava vários bairros, os combates prosseguiam, com inusitada violência, e estavam ainda presentes as regras de vida sob o governo do Califado.

O livro é, antes de mais, o relato da minha experiência pessoal. Mas tenta lançar pistas para a compreensão do fenómeno do radicalismo islâmico e como é aparentemente tão fácil e plausível que sociedades inteiras se entreguem de forma acrítica, às práticas mais sanguinárias e desumanas.

Como perspetiva o atual paradigma do jornalismo?

Penso que o jornalismo atravessa uma grave crise. Está a ser colocado em causa nos seus pressupostos pelas novas tecnologias, pela globalização e pelas novas realidades económicas. E não está a saber reagir. Não está a saber definir o que é o seu valor específico, único, insubstituível e imprescindível, preferindo sintonizar-se e competir com o caos de rumores, notícias falsas, sensacionalismo desonesto, histeria das turbas. O desaparecimento do jornalismo sério significará a extinção das sociedades democráticas. É preciso, por isso, protegê-lo, não sendo porém certo que tal seja garantido pelas leis do mercado. É aí que surge a necessidade de novas formas de financiamento do jornalismo e da reportagem, que pode passar pelas fundações, fundos de universidades, apoios estatais, etc. Se as artes merecem ser apoiadas, o jornalismo não tem, decerto, menor utilidade pública.