Marina Almeida

Um mapa na mão e uma estrada em branco

Pelo país. Resumo de um ano de viagens em reportagem por todo o país

Um mapa na mão e uma estrada em branco

E de repente tens um mapa de Portugal na mão e uma grande estrada em branco. O que fazer? Jornalismo.

Foi assim que começou, há um ano, o desafio de fazer reportagem, seguindo a toada da exposição que marcou os 50 anos do Expresso. À medida que os 50 múpis com as primeiras páginas do jornal avançavam pelo país, fazíamos reportagens em cada um dos distritos. Durante nove meses, a cada duas semanas estávamos mergulhados num território diferente. Levávamos uma, duas ou três conversas marcadas, e não tardávamos a encontrar outros motivos de reportagem. E foi um desassossego.

Em Santarém comprámos um mapa. Era preciso ver Portugal inteiro fora do retângulo falante do GPS. Não foi à primeira que o encontrámos, os mapas são espécies em extinção. Numa estação de serviço numa rotunda movimentada do Ribatejo ali estavam, finalmente, num expositor. Pedimos um à jovem que estava na caixa. Respondeu que não tinha, e eles ali acima da cabeça que dizia não. Espantou-se quando descobriu que, afinal, vendia mapas. “Nem sabia que isso estava aí.” Seguimos pelo país todo com o mapa de papel, assinalando os lugares e as pessoas que encontrávamos, sem dispensar o GPS. Seguimos entre passado, presente e futuro.

Em Viseu, fomos saber como vão à escola as crianças que vivem em zonas remotas ou porque se faz fila para o teatro numa aldeia. Em Vila Real, como nasceu um museu a partir da paixão de um padre por moe das antigas, em Elvas um centro de arte contemporânea que disputa atenção com os grandes museus. Na ilha da Madeira, o que transporta o seu linguajar. Em Viana do Castelo, como o ouro popular se entranhou nestas mulheres e como os estaleiros se tornaram uma “fábrica de nada”. Nos Açores, como é que um homem (José do Canto) mudou a paisagem, como uma cidade (Angra do Heroísmo) ainda se faz com mastros das naus dos descobrimentos e como um artesão húngaro mantém vivas as fechaduras de madeira do Corvo. No Fundão, como se recuperam motos portuguesas antigas que fazem furor pelo mundo. O que significa Braga ser “o pequeno Brasil”.

São perto de centena e meia os trabalhos do projeto dos 50 anos do Expresso. Estão todos disponíveis online. Os que aqui se apresentam são uma pequena seleção desta viagem moldada pelo tempo — que foi pouco, porque o calendário era exigente e porque procurámos sempre mais, e foi muito porque permitimo-nos escutar as vozes do caminho fintando a correria. E escutar, com tempo, é um luxo.

Em Videmonte, no distrito da Guarda, sentámo-nos com Alcina, pastora e queijeira com enorme amor às ovelhas e ao seu labor. Caía uma luz branca de cozinha de pequena produção artesanal com um asseio laboratorial, e as mãos de Alcina iam espremendo o leite coalhado — e a vida. Escutámos vários relatos de quem, como esta pastora de Videmonte, não teve opção, de quem pouco ou nada estudou, carregando agora uma sabedoria única. Gente agarrada à terra e a um saber fazer que era sustento de avós e pais e seria também o seu futuro. São eles os guardiões da terra e dos ofícios. Este foi um Portugal que encontrámos. Com este Portugal, convive(m) outro(s). O de Filipe e de Ana Teresa, ela com duas licenciaturas (biologia e engenharia florestal) e os cursos de pastora e de queijeira, ele engenheiro agrónomo. Eles são jovens pastores por opção, por convicção, na serra da Estrela.

Nesta descoberta do país, as portas abriram-se para conhecermos tantos outros projetos inovadores. A busca incessante das sete dezenas de cientistas do laboratório HERCULES — Herança Cultural, da Universidade de Évora, gente com uma curiosidade peculiar. Interessam-se por iluminuras do século XVI, pelos frescos de Almada Negreiros ou por ossadas de freiras carmelitas com 600 anos com um entusiasmo contagiante. Destas pesquisas sai conhecimento que permitiu, por exemplo, perceber quais os materiais mais adequados para restaurar os painéis de Almada Negreiros nas gares marítimas, em Lisboa. Ou como Évora era um importante centro artístico a nível europeu no século XVI.

Em Coimbra seguimos os caminhos da investigação aplicada à saúde, em Vila Real acompanhámos o trabalho do Centro de Recuperação de Animais Selvagens, da Universidade de Trás-os-Montes. Em Bragança, desvendámos como se perspetiva o futuro da alimentação no Politécnico da cidade, em Braga, como nasceu um subúrbio industrial de excelência. Em pleno verão, visitámos o Centro Nacional de Reprodução do um lugar de missão a tempo inteiro, com os médicos veterinários a monitorizar os felinos 24 horas por dia, 365 dias por ano, para os preparar para serem libertados. Em sete anos, salvaram a espécie de extinção e por esta altura deverão andar dois mil linces pela Península Ibérica.

Neste quase ano de viagem, há temas que atravessam todo o território: a falta de mão de obra (na agricultura, na indústria, na restauração, na construção) aplacada em algumas regiões com a presença de imigrantes, que mudam a paisagem de aldeias e cidades — o caso do Fundão é um exemplo de muitos; o turismo, a mudar hábitos, ementas e lugares, mas também a criar uma nova economia; a especulação imobiliária; aldeias desertas de gente, algumas capitais de distrito reféns de universidades ou politécnicos ali instalados; o desafio de fixar os jovens fora dos grandes centros; o desafio de fixar os jovens no país; o desafio de ser velho em Portugal.

Ouvimos várias vezes a pergunta, em vários pontos mais ou menos remotos do mapa: “Mas, afinal, o que andam aqui a fazer?” Explicávamos. Em várias ocasiões apontavam-nos novos caminhos. Fomos publicando a cada duas semanas, no site e nas páginas do Expresso, o resultado desta viagem tentacular. Muito ficou por contar, felizmente. Portugal tem uma riqueza de vozes, de saberes, de olhos vivos à procura do futuro.