2001

27/04/2001

O DIA QUE MUDOU O MUNDO

Até à nossa edição de 8 de setembro, a primeira página refletia um mundo em rotação normal. A 15 de setembro titulávamos: “A América já acordou”. No dia 11, o mundo tinha mudado com os ataques suicidas nos EUA feitos com quatro aviões comerciais desviados pela Al-Qaeda, que provocaram quase 3 mil mortos e o espetacular desabar das torres do World Trade Center em Nova Iorque. Em breve teríamos enviados ao Tajiquistão e ao Paquistão; e até tivemos de evacuar o nosso edifício na Rua Duque de Palmela, em Lisboa, por causa de um alarme de antrax.

Até aí, a grande tragédia do ano tinha sido a de Entre-os-Rios, com a queda da Ponte Hintze Ribeiro e a morte de 59 pessoas, o que levaria à demissão do ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho.

Em 2001, o Boavista foi campeão nacional; e Sporting e Benfica debatiam se deviam ter um estádio único. O Porto era Capital Europeia da Cultura; Herberto Helder escrevia uma carta ao Expresso a dizer que não aceitava que Isaltino Morais mandasse fazer uma estátua sua para o Parque dos Poetas de Oeiras; os talibãs destruíam as estátuas dos Budas de Bamiã; e em dezenas de cemitérios portugueses apareceram estátuas de anjos com a cabeça cortada.

José Sócrates, ministro do Ambiente, chumbou a “Manhattan de Cacilhas”; e João Soares, presidente da Câmara de Lisboa, queria um elevador para o Castelo de São Jorge com 85 metros de altura e quase 200 metros de passadiço. Jorge Sampaio foi reeleito Presidente da República. E o PS foi o grande derrotado das autárquicas, levando à demissão de António Guterres “para evitar um pântano político”. Pedro Santana Lopes venceu em Lisboa e Rui Rio venceu no Porto.

Seis empresários portugueses foram assassinados em Fortaleza, no Brasil, num crime planeado por Luís Miguel Militão; 5 dos 19 trabalhadores da Soares da Costa em Cabinda foram raptados pela Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda; Fidel condecorou Vasco Gonçalves. Morreram Anthony Quinn, John Lee Hooker, Jorge Amado, Christiaan Barnard, George Harrison, Gilbert Bécaud, Léopold Sédar Senghor…

Estalou uma polémica política quando a Lei da Programação Militar foi aprovada por 115 deputados, mas o Expresso descobriu nas imagens da votação que não estavam mais de 70 nas bancadas. Nesse ano, o país já tinha debatido os efeitos na saúde dos nossos militares provocado pelo uso de urânio empobrecido nas munições das forças da NATO nos Balcãs; e os Censos 2001 revelavam que Portugal tem uma área de 244 quilómetros quadrados superior aos registos oficiais.

Deixamos para o fim uma revelação surpreendente feita por Ana Maria, a filha de Marcello Caetano, que contou ao Expresso que na madrugada de 25 de Abril, ao procurar o pai na residência, descobriu, aberto sobre uma secretária, o livro que este se pusera a ler logo que fora informado da movimentação militar: “O Manifesto Comunista”, nas páginas devotadas “às movimentações de massas”.

 

Expresso 2001