Marina Almeida

A nova vida das lojas históricas do Porto

Naquele tempo, na Baixa do Porto quase só se viam cabeças no ar. Agora os bancos reduziram-se para 15%, as companhias de seguros também. Foram saindo daqui centenas que tinham poder de compra e que mantinham as nossas casas de pé, porque era pessoal que gostava do bom e podia pagar o bom! Esses desapareceram. Os que aparecem por aqui vêm ao barato, sem qualidade. Mais nada.” Alberto Rodrigues é proprietário da Mercearia do Bolhão, no 305 da Rua Formosa, uma das casas mais antigas do Porto, há 25 anos. Fundada em 1880, era a secção de mercearia da Confeitaria do Bolhão.

“Há 25 anos, para nós era muito melhor, fazia-se o triplo do negócio que se faz hoje. Mas quanto é que aumentou o artigo de lá até cá? Evidentemente que ainda tenho o cliente com poderio e que sabe distinguir o produto.” Poucos números abaixo, no 279, está a superstar das mercearias finas do Porto — graças à fachada de azulejos Arte Nova, a Pérola do Bolhão já há de ter sido cenário de milhares de selfies. A casa é de 1917, sempre na mesma família, a de António Reis. Tem 91 anos e está na caixa registadora. Nasceu no andar de cima, e a mercearia que o pai fundou é a sua vida. Fez o curso comercial e aprendeu inglês, francês e espanhol. As línguas “deram jeito” para atender os turistas, que durante o ano são os principais clientes. “O negócio está parado. Têm vindo os turistas, os nacionais parece que não comem”, diz o comerciante.

A clientela há de encher esta e as outras mercearias da Baixa do Porto na altura do Natal e na Páscoa, as épocas altas. Também na Favorita do Bolhão, na Rua Fernandes Tomás, mudou o padrão de compra. São as conservas que ocupam grande destaque à entrada, bem como o vinho do Porto, o artigo que mais vende. Nesta mercearia, de 1934, nas mãos do atual proprietário desde 1974, o responsável de loja, Nuno Jesus, explica: “Os nossos clientes são muito fiéis, o segredo é o atendimento e a qualidade do produto. Temos casos de três gerações que continuam a vir, às vezes até ficam comovidos.” O relógio da Favorita está parado nas 10 horas. Funciona quando lhe dão corda, e não é sempre, porque a operação é delicada. Há meio século, quando estas mercearias se enchiam de clientes, as zonas comerciais da cidade estavam bem definidas. Se os portuenses queriam parafusos, iam à Rua do Almada, retrosarias era na Rua Fernandes Tomás, xailes e gravatas na Rua dos Clérigos, chapéus era na 31 de Janeiro.

Nas mercearias da Baixa mudou a clientela: mais turistas que levam conservas e vinho do Porto FOTO RUI DUARTE SILVA
Nas mercearias da Baixa mudou a clientela: mais turistas que levam conservas e vinho do Porto FOTO RUI DUARTE SILVA

O efeito Harry Potter

É outro Porto este que percorremos, com muitos turistas, o trânsito (automóvel e pedestre) virado do avesso com as obras de expansão do metro e filas permanentes para a Livraria Lello, onde a visita custa €8, e ocasionais para o Majestic, onde um café custa €5. Há um efeito Harry Potter no turismo da cidade, com oferta de várias visitas guiadas aos locais onde se acredita que J.K. Rowling se inspirou para a famosa saga, bem como oferta de produtos inspirados nesse universo. É o caso da Escovaria de Belomonte. A loja, no número 34 da rua que dá nome à casa, nasceu em 1927, pelas mãos do bisavô materno de Sérgio Rodrigues. À entrada da loja, expositores com pincéis de barba e escovas de cabelo, pequenas e grandes vassouras, escovilhões grandes e pequenos, piaçabas. E, em destaque, a vassourinha do Harry Potter.

“Recebemos muitas visitas de fãs que dizem que a J.K. Rowling se inspirou na nossa loja, nas nossas vassouras, para imaginar a vassoura do Harry Potter. Não temos nenhuma confirmação oficial, mas fomos quase obrigados a fazer uma”, diz Sérgio, designer, de 30 anos. Passando o balcão e os expositores, encontramos a oficina. Daqui saem escovas também para a indústria e para o mercado do luxo. “Somos os únicos na Península Ibérica a fazer todo o trabalho, desde trabalhar as madeiras às furações, ao pelo. Até fazemos a cera”, conta o pai, Rui Rodrigues. O filho desenvolveu a linha de cuidado pessoal, bem como toda a imagem. A escovaria tradicional deu um salto de valor, posicionando-se de outra forma, criando canais de venda online. Há edições especiais e escovas que podem custar €400.

No Porto, quem precisa de sapateiros ainda pode subir ao Cimo de Vila. Na Casa Crocodilo reparam-se malas, carteiras, mochilas, sapatos, colocam-se fechos e fivelas, dá-se nova vida a marroquinaria que parecia condenada. Fundada em 1945, está viva graças ao neto do fundador, um farmacêutico de 41 anos que mudou de vida com a pandemia. Custava-lhe ver a loja onde brincara desde menino a definhar. “Em 2019 decidi suspender a minha profissão e vim tratar de reerguer a loja”, conta André Coutinho. O incentivo da Câmara Municipal, através do Porto de Tradição, programa de salvaguarda das lojas históricas da autarquia, foi importante para esse passo: criado há seis anos, já apoiou 110 estabelecimentos, dos quais 17 ligados às artes e ofícios, num valor total de €1,2 milhões. André Coutinho está agora empenhado em seguir com o negócio da família e tem ideias de criar uma linha própria. “Os estrangeiros valorizam muito se é feito cá.”