Luis Paixão Martins

Luís Paixão Martins

Como a independência da edição custou uma fortuna a Murdoch

No Outono de 2014, Rupert Murdoch, o magnate dos Media, decidiu investir 125 milhões de dólares na Theranos, uma empresa californiana que prometia revolucionar o mercado das análises clínicas.

A “startup” criada, meia dúzia de anos antes, por uma aluna da Universidade de Stanford tinha rapidamente ascendido ao estatuto de “unicórnio” e a sua promotora Elizabeth Holmes, jovem e sedutora, era o retrato de uma nova geração de empreendedoras acarinhada por políticos como o presidente Barak Obama. 

Murdoch ignorava que um jornalista da sua vasta folha salarial tinha já reunido informações para publicar uma série de reportagens que haveriam de destruir aquela companhia e o levaram a vender o seu pacote de ações, em Março de 2017, por 1 dólar simbólico. 

O jornalista John Carreyrou, que acaba de editar (na Picador) uma pormenorizada reportagem sobre os segredos e as mentiras da Theranos sob o título “Bad Blood”, relata que, enquanto a direção do Wall Street Journal e os seus juristas avaliavam as consequências jurídicas e financeiras da divulgação da reportagem, Murdoch foi abordado em três reuniões privadas pela empresária com o objetivo a que obstasse à sua publicação. 

Num desses contactos, escreve, Elizabeth Holmes “referiu-se à minha história, argumentando que as informações que eu tinha recolhido eram falsas, e que a mesma provocaria grandes prejuízos à Theranos no caso de ser editada”. “Murdoch, prossegue, objetou dizendo que acreditava nos editores do jornal para gerir o assunto com justiça”. 

Quando a publicação da primeira reportagem estava já em preparação, veio a promover uma quarta reunião no próprio edifício do WSJ, sendo que apenas 3 andares separavam Murdoch e Holmes da sala de redação onde se encontrava Carreyrou. “Ela voltou a abordar o problema da minha reportagem - escreve o jornalista -, desta vez com renovada urgência, na esperança de que Murdoch se oferecesse para a liquidar. Mais uma vez, apesar do investimento substancial que estava em causa, ele declinou qualquer intervenção”.

O investimento em causa era, de facto, o maior investimento individual de Murdoch fora do sector dos Media - embora fosse uma pequena fatia da sua fortuna de ativos avaliada em 12 mil milhões de dólares. 

Rupert Murdoch é, reputadamente, um dos empresários mais mal-amados da história do sistema mediático tradicional, mas esta história demonstra como esse sistema continua a reger-se por princípios superiores - nomeadamente o da independência e autonomia da Edição - apesar da concorrência dos mercados desregulados.