Luís Paixão Martins
A “fake news” de Fernando Pessoa
Em 1930, no dia 2 de setembro, o poeta da Mensagem vai ao cais da Rocha do Conde de Óbidos, onde atracara o “Alcântara”, dar as boas-vindas a Lisboa ao astrólogo Aleister Crowley.
Este cidadão inglês, conhecido como “Mestre Therion” e auto-intitulado “A Besta 666”, era um mago de reputação internacional.
Pessoa, que sempre se interessou pela influência dos astros nas pessoas, escrevera-lhe para confirmar um erro que tinha detetado no seu horóscopo, tendo-se estabelecido entre os dois um relacionamento epistolar.
Um belo dia - estou a recorrer à notável biografia de João Gaspar Simões - “o mago anuncia ao seu émulo perdido nos confins ocidentais da Europa que virá a Portugal, propositadamente, para conhecer, em carne e osso, o prodígio astrológico que ele é”.
Esta estada de Crowley em Portugal, acompanhado por uma jovem alemã, Anni L. Jaeger, culmina na criação de uma cabala, isto é, de um episódio destinado a criar aquilo a que hoje se chamaria de “fake news”.
De facto, a 25 de outubro, inglês e alemã desaparecem. O jornalista Augusto Ferreira Gomes, confrade ocultista do Notícias Ilustrado, cúmplice da trama, publica a reportagem de uma misteriosa cigarreira abandonada junto a uma carta na estrada da Boca do Inferno em Cascais.
Crime ou suicídio? pergunta.
Na carta escrevia-se: Ano 14, Sol em Balança. Não posso viver sem ti. “A outra Boca do Inferno” apanhar-me-á. Não será tão quente como a tua. Tu Li Yu.
Pessoa é chamado à polícia para um testemunho. Desenvolve uma teoria cabalística sobre o conteúdo da carta, enfatiza o desaparecimento do casal de amigos e dramatiza a situação.
Com êxito. O acontecimento corre mundo. “Aleister Crowley Assassinado - Revelações Espíritas a Um Médium de Londres - Empurrado dos Rochedos Abaixo”, titula um jornal inglês.
Gaspar Simões explica-nos que a geração do Orpheu não queria desaparecer sem deixar para a posteridade o seu Mistério da Estrada de Sintra - neste caso, o Mistério da Boca do Inferno -, já não apenas num plano literário, na escrita de um folhetim, mas num plano de mistificação, com a encenação de um evento falso que fosse objeto de cobertura jornalística.
Anos mais tarde, em 1931, Pessoa confessou numa frase dúbia: “O Crowley, que, depois de se suicidar, passou a residir na Alemanha, escreveu-me há dias…”. Quanto à jovem, as fichas da Polícia Internacional dão-na como embarcada no “Werra” que zarpara do Tejo a 20 de setembro.
