1987

27/04/1987

“MATA SETE” E A 1ª MAIORIA ABSOLUTA

Já imaginou começar um ano com o anúncio de uma descida de preço dos automóveis? Pois foi o que aconteceu em 1987 — embora a medida tenha abrangido poucos modelos e tenha sido tomada por uma questão de legislação fiscal.

A nível nacional destacaram-se neste ano dois grandes temas — um crime e uma vitória política. O primeiro, um dos maiores e mais bárbaros crimes cometidos em Portugal, foi o caso Osso da Baleia, uma praia perto da Figueira da Foz onde foram encontrados vários corpos. Pouco depois descobria-se que o autor era o bancário Vítor Jorge e que tinha matado sete pessoas, cinco jovens — que matara nessa praia a tiro de caçadeira e à paulada — e a mulher e a filha mais velha, à facada. Ficou conhecido como o “Mata-Sete”. Morreu na Córsega em 2019, 16 anos depois de ter sido libertado.

O segundo foi a primeira maioria absoluta obtida por um único partido desde o advento da democracia em Portugal. Foi o PSD, com Cavaco Silva ao leme, em 19 de julho, pouco mais de três meses após a queda do seu governo, ditada por uma moção de censura do PRD, apoiada pelo PS.

No mundo – que atingiu os 5 mil milhões de almas -, um dos principais acontecimentos do ano foi o acordo histórico entre os líderes norte-americano, Ronald Reagan, e soviético, Mikhail Gorbatchov, para a redução do número de armas nucleares das duas potências.

Mas se a então União Soviética protagonizou neste ano um grande acordo estratégico mundial, também foi palco de um enorme falhanço estratégico nacional: um adolescente alemão chamado Mathias Rust pegou numa avioneta e levou-a União Soviética adentro, fazendo-a aterrar quase às portas do Kremlin, sem que ninguém o incomodasse.

Por cá, morreram o último símbolo da ditadura e o primeiro da democracia: o Presidente Américo Tomás e Zeca Afonso, o autor de “Grândola, Vila Morena”, canção que na noite de 24 para 25 de abril de 1974 serviu de senha aos revoltosos. A Bolsa nacional colapsou com estrépito e houve grande sururu político depois de ter sido revelado que os serviços de informação militares espiavam os partidos políticos. No Parlamento houve um dia de grande excitação: o da visita da atriz porno italiana Cicciolina, eleita deputada em Itália e que fez a sua saudação habitual mostrando um dos seios.

Houve ainda mais uma achega para o caso Camarate, a queda da avioneta em que morreu Sá Carneiro em dezembro de 1980 (acidente ou atentado?), com uma carta que os americanos (envolvidos nas investigações) enviaram ao Parlamento português dizendo que tinha sido um acidente.

Este foi também o ano em que ganhou corpo a dimensão portuguesa no caso Irão-Contras, a venda de armamento português aos “contras” da Nicarágua, que na realidade a CIA desviava para o Irão (submetido a embargo internacional) para financiar depois os “contras” com esse dinheiro. A investigação do Expresso sobre o caso valeram aliás o Prémio Gazeta desse ano a três jornalistas da casa.

Por falar em casa, foi neste ano que o Expresso, em associação com a Unysis, lançou o maior prémio nacional, o Prémio Pessoa, que é desde então uma referência nacional. O primeiro galardoado foi o historiador José Mattoso.

 

Expresso 1987